Wendel, ex-Corinthians, vende chuteiras para complementar salário de R$ 1 mil em time da Série B do Rio
Por : Aligelson Leonel
A vida de um jogador é uma caixinha de surpresa. Em uma temporada você é campeão, na seguinte, uma lesão pode acabar com um sonho. Wendel é um grande exemplo. Campeão Brasileiro de 2005 com o Corinthians, o volante sofreu uma grave contusão e ficou dois anos parado. Deu a volta por cima em times menores e hoje é atleta do Atlético Barra da Tijuca, que disputa a Série B do Rio, onde recebe R$ 1 mil.
A grande história vem aí: para complementar a renda, ele vende chuteiras para outros jogadores. Tudo começou há dez meses, quando Wendel saiu do Uberlândia, onde jogou o Mineiro de 2016. Desempregado, conheceu um amigo que comercializava chuteiras e resolveu aprender o negócio.
— Eu comecei a vender e vi que dá certo. Mantenho porque venho treinar de manhã e à tarde eu fico nas redes sociais, pelo whatsapp, tentando vender para amigos com quem joguei e através deles, que vão me indicando para outros — diz o jogador. — Tenho conseguido me manter tranquilamente, pagar minhas contas em dia. Enquanto isso, tento voltar ao futebol.

Os valores dos calçados variam entre R$ 350 e R$ 1 mil. O pagamento é feito à vista, por depósito bancário, transferência ou cartão, com um aplicativo ou maquininha. Entre os famosos que já compraram de Wendel estão o goleiro Gatito, do Botafogo, o meia Carlos Alberto, do Atlético-PR, o atacante Rafael Moura, do Atlético-MG, o zagueiro Betão, do Avaí, e até para o ex-atacante Aloísio Chulapa.
— Hoje em dia, ganho mais com chuteira do que em alguns clubes onde joguei. Tem meses que vendo de 30 a 40 chuteiras em um mês. No começo dos Estaduais, cheguei a vender 60 chuteiras num mês — relata. – A rapaziada dá uma pesquisada e acha mais acessível comprar de mim do que em outros sites. Além de confiar e ajudar. Tudo acaba dando certo. Mas os que estão em muita evidência não compram, porque são patrocinados ou, se não são, eles ganham os calçados.

Salário igual no time todo
O salário recebido pelo volante é o mesmo dos 27 jogadores que estão no plantel do Barra da Tijuca, que hoje recebe o Friburguense, às 15h, em Conselheiro Galvão. Ele aceitou jogar no time mesmo sabendo que o vencimento era baixo. Mas as venda das chuteiras deixa tudo equilibrado, apesar de o jogador preferir não revelar o seu lucro.
— Eu não gostaria de falar. Não chega perto do que eu ganhava no Corinthians. Mas é um bom negócio — conta.
Wendel ainda não tem condições de jogo. Chegou ao clube com oito quilos acima do peso, já perdeu quatro e meio em dois meses e está próximo dos 80kg, o seu ideal.
— Cheguei com 88kg, mas já perdi peso com a ajuda do nosso preparado físico. Tudo para conseguir jogar em alto nível e ajudar o time com o meu futebol, e não por causa do nome — diz.

Lesão quase acaba com a carreira
Oriundo das categorias de base do Corinthians, Wendel ganhou espaço no time principal em 2005, onde chegou a ser titular com o técnico Antônio Lopes, na época. O clube foi campeão Brasileiro naquele ano. Mas o volante foi emprestado ao Fortaleza em 2006 e quando retornou, no início de 2007, o então treinador Emerson Leão não queria atletas emprestados de volta. Nesse momento que sua vida deu uma guinada, mas a queda foi rápida.
– Sempre achei que seria do Corinthians para mais, para voos mais altos na Europa. Fiquei encostado e tinha contrato até o fim de 2008 com o time. Um empresário conseguiu um clube na Áustria para mim, com contrato de três anos. Eu pedi rescisão do Corinthians e assinei, arrisquei porque achava que tinha potencial – relembra o jogador, que sofreu uma lesão no time austríaco.
– Fiz uma ótima temporada, houve interesse de times alemães, mas lesionei o joelho direito e os médicos disseram que eu voltaria em pouco tempo. Porém, demorei dois anos e passei por três cirurgias, por problemas com a cartilagem. As cirurgias não ajudaram, foi com o tempo parou a dor.

As dificuldades surgiram porque nenhum clube queria contratá-lo. Foi então que ele recomeçou em clubes menores pelo Brasil. Agora, aos 33 anos, ele ainda não pensa em se aposentar e sonha conseguir voltar a um time de elite.
– Muitos clubes visam ter jogadores novos para fazer boa campanha e dinheiro com a venda. Me encontro nessa situação hoje. Venci a lesão e a desconfiança de todos. Agora pesa a idade e surgem dúvidas. Mas não acho demérito jogar em clube de menor expressão mesmo já tendo estado lá em cima. Se você faz o que você gosta, é melhor coisa. Tento correr atrás e aparecer para o cenário do Rio - afirma.

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