Enquanto a violência explode, número de detidos pela polícia no Rio despenca em 2017
A sensação do morador do Rio tem respaldo nos números: o estado vive seu momento mais violento. Enquanto os índices de criminalidade explodem, porém, as estatísticas de prisões e apreensões de menores divulgadas pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) seguem caminho inverso. O total de detidos nos quatro primeiros meses do ano, na comparação com o mesmo período de 2016, despencou 11% e 21%, respectivamente.
No último domingo, o Portal Real News mostrou, também com base nos dados do ISP, que registrou-se, em 2017, o pior mês de abril da série histórica para cinco tipos de roubos (a pedestres, de celulares, em ônibus, de veículos e de cargas), assim como no total de assaltos. Contudo, para o cientista político João Trajano Sento-Sé, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a escalada na violência não necessariamente acompanha, como de fato tem ocorrido, um aumento nas prisões e apreensões.
— Existe uma certa volatilidade nesses dados, e não há uma correlação obrigatória entre as duas estatísticas, até porque o número de prisões não aponta se a polícia está trabalhando bem. Dito isso, estamos numa tremenda crise no estado, sem precedentes nas últimas décadas, e isso também afeta as polícias, que estão, sim, operando mal e insatisfeitas — analisa o professor.
A queda nas detenções seria ainda maior se o ISP não tivesse corrigido recentemente, por uma mudança de metodologia, alguns índices. O número de prisões no primeiro quadrimestre do ano passado, por exemplo, foi atualizado de 18.958 para 17.522 registros.
Na análise por região, as quatro áreas do estado que registraram queda mais acentuada no número de prisões são atendidas por delegacias da Baixada Fluminense: a 62ª DP (Imbariê), de Duque de Caxias; a 48ª DP (Seropédica); a 53ª DP (Mesquita); e a 56ª DP (Comendador Soares), de Nova Iguaçu — veja mais no infográfico abaixo. Tanto a 53ª DP quanto a 56ª DP ficam dentro do perímetro de atuação do 20º BPM (Mesquita), batalhão que, por sua vez, foi palco do maior número de ocorrências do Rio em três tipos de roubo em abril (a pedestre, de veículo e de celular).

‘Há um problema de efetivo nas polícias. Aí a demanda cresce e você não dá conta’
Entrevista com Paulo Storani, antropólogo e ex-capitão do Bope, onde foi subcomandante
Como o senhor vê essas estatísticas de prisões e apreensões?
Não creio numa única causa, é uma soma de fatores. Podemos pensar, por exemplo, na questão da produtividade policial, já que a prisão em flagrante depende, em grande parte, de ostensividade, da presença do agente de segurança. E as polícias sofrem hoje, em especial a PM, com um problema sério de efetivo, o que causa uma sobrecarga natural, um estresse físico e psicológico. Aí a demanda aumenta e você não dá conta.
O que ocasiona esse problema de efetivo, sobretudo na PM?
Houve um crescimento enorme no número de agentes afastados por problemas de saúde. Já são 17 mil só na PM, ou 30% do efetivo. E tem ainda a crise no estado, que afeta diretamente a segurança. O policial começa o mês na expectativa de receber salário, o 13º não foi pago, devem cinco meses de RAS (o Regime Adicional de Serviço). É um trabalhador como qualquer outro, que precisa descansar, ser pago. Barriga vazia não tem quem comande. O que ocorre é que ou o profissional para de trabalhar ou se corrompe.
E que outros fatores contribuem para esse cenário?
Algo que me preocupa são as audiências de custódia. Em três anos, houve uma inversão: 60% dos detidos eram mantidos presos e 40% libertados. Agora, é o oposto. Há essa política clara por parte do Judiciário, mesmo que muitos sejam reincidentes. Isso aumenta a desmotivação da tropa e também a violência, já que o camarada não tem porque parar de roubar.

Veja, abaixo, a íntegra da nota enviada pela Polícia Militar:
“A Polícia Militar avalia que esses números são impactantes. No entanto, a Corporação ressalta que ao comparar esses quadrimestres é preciso levar em consideração o cenário de crise por que passa o país, em especial o Rio de Janeiro. A Corporação vem mês a mês perdendo recursos humanos e materiais. Nossa mobilidade tem sido comprometida, dificultando o serviço preventivo. Somam-se a isso outros fatores que vêm contribuindo para agravar ainda mais esse cenário, como as audiências de custódia que têm colocado em liberdade pessoas que são reiteradamente presas pela Polícia Militar.
Ainda assim, observamos que nesse período analisado houve redução do roubo transeuntes (-24,3%), do roubo de rua (-15,1%), roubo a estabelecimento comercial (-24,8%) e roubo de residência (-19,7%). É preciso ainda destacar que somente neste ano, até a presente data, a Corporação tem 195 fuzis apreendidos.
Enfim, esses índices criminais são impactantes e refletem um cenário de crise que não depende apenas da Polícia Militar para ser revertido.”
Nota da redação:
A análise feita pela Polícia Militar em relação aos roubos a pedestre, de rua, a comércio e de residência é prejudicada pela greve da Polícia Civil, que durou até o dia 7 de abril e causou uma intensa subnotificação em diversos tipos de crime, como o reconhecido pelo próprio ISP. Considerando somente o mês de abril, já menos impactado pela paralisação, as estatísticas são alarmantes, tal qual o citado pela reportagem.

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